Ecossistemas da Mata Atlântica: Costão Rochoso

28/09/2012 | Coluna: Meio Ambiente

Ecossistemas da Mata Atlântica: Costão Rochoso

Nada mais importante que conhecermos nossos ambientes para darmos o devido valor. Moramos em um lugar rico em recursos naturais e não conhecemos nada, nenhuma função ecológica, nenhuma interação, nada. Portanto, nunca é tarde para aprender, da próxima vez que você olhar uma área natural, vai olhar de forma diferente.

Então vamos à nossa serie de educação ambiental sobre os ecossistemas associados da Mata Atlântica, começando pelo Costão Rochoso, área litorânea caracterizada por rochas na encosta de morros ou mata, banhadas pelas águas do mar. As condições ambientais são dependentes das condições atmosféricas, que sofrem grande variação, tornando o local bastante seletivo quanto aos organismos que ali vivem.

As rochas são bastante recortadas pela ação das ondas e dos organismos que se fixam nelas. A principal característica a ser observada em um costão rochoso é o que chamamos de zonação: são as faixas horizontais perfeitamente visíveis, que representam os pontos de variação da maré. A maré influencia na vida do costão, pois durante o período de 24 horas ela irá encher e esvaziar duas vezes, variando a salinidade, temperatura, pH, umidade e disponibilidade de alimento; fatores limitantes para a sobrevivência de muitos seres vivos. Estes organismos sofreram uma série de adaptações evolutivas para que obtivessem sucesso. Existem também as poças de maré que são locais onde, mesmo com a maré baixa, continuam preenchidos com água do mar, o que mantém um pouco menos drásticas as variações ambientais.

Quanto à fauna da praia, pode se observar uma grande quantidade de cracas (Lepas sp) ocupando todas as faixas das rochas. Cracas são crustáceos fixos que possuem uma capa calcárea parecendo um vulcãozinho que os protege das variações ambientais e quando a maré está cheia, seus "braços" são colocados para fora para a captura de alimento. Outro crustáceo habitante deste local é a baratinha d´água (Lígia sp) que ora está na praia escavando buracos, ora está nas rochas buscando alimento.

Mariscos e ostras são moluscos que também se encontram fixos habitando todas as zonas do costão. São da classe Bivalvia, pois possuem duas conchas que permanecem fechadas e abrem somente para a alimentação que é realizada por filtração. Os mariscos são os organismos que mais filtram o plâncton marinho, sendo ótimos indicadores de poluição. É interessante observar que organismos maiores normalmente são encontrados nas faixas inferiores, pois recebem água por mais tempo, e consequentemente possuem condições mais estáveis para se desenvolver. Uma curiosidade sobre as ostras é quanto à formação da pérola, que nada mais é do que o mecanismo de defesa deste animal, pois quando um grãozinho de areia entra na concha, o molusco inicia uma secreção de substância que irá se solidificar em volta do objeto invasor, para isolá-lo do perigo, formando assim a pérola do mar.

Outro molusco bastante freqüente é o caramujo, que possui conchas espiraladas e vive dentro delas para sua proteção. Aqui encontramos alguns de médio porte (Thaís sp) e outros de menor tamanho (Littorina ziczac) as quais possuem este nome por serem listadinhas de preto e branco, vivendo principalmente nas faixas médio e superior.

Observando buracos redondos nas rochas, podemos entender como vivem os ouriços do mar (filo Equinodermata) com os quais devemos tomar cuidado ao caminhar no costão (ver orientações adiante). São redondos e possuem espinhos por todo o corpo, os quais vão "cavando" as rochas formando estes pocinhos, porém, dependendo da época do ano (outono-inverno) não encontramos quase nenhum representante no local. São herbívoros e por isso, onde eles estão, normalmente existe menor quantidade de algas. A este mesmo filo pertencem os pepinos do mar ou lesmas do mar, as quais podem ser encontradas em poças de maré, porém não são abundantes nesta praia.

Outro animal que vive nas poças ou em local que sofre pequena variação de maré como a zona inferior, são as anêmonas, celenterados da classe Anthozoa. Vivem fixas e possuem tentáculos para captura de alimento, sendo que possuem o mecanismo de fechamento dos mesmos para se protegerem contra predação ou dessecação na maré muito baixa. Principalmente na região superior das rochas do canto direito da praia existem colônias formadas por tubinhos de areia, são os tubos de poliquetos, vermes anelídeos que controem estas "casinhas" para sua proteção. Muitas vezes estes animais utilizam elementos encontrados na areia, como pedaços de pau ou de conchas para construírem seus tubos.

Bem, agora podemos falar da vegetação existente no costão rochoso. Na parte extrema superior, logo em contato com a mata, encontramos bromélias, orquídeas e suculentas, como cactos e crassuláceas. As primeiras são epífitas e normalmente estão fixas em outras plantas, porém todas possuem características adaptadas a receber de vez em quando respingos de água salgada, gerados pela ação das ondas batendo nas rochas.

Também nesta área, permanentemente fora do nível alto da maré, existem os fungos liquenizados, que aqui são na maioria folhosos. Estes organismos são formados pela associação de algas e fungos, onde as algas realizando fotossíntese disponibilizam açúcares e o fungo absorve e conserva água, proporcionando umidade. Esta associação, para alguns, se dá de forma simbiótica e para outros, de maneira parasitária por parte do fungo. São organismos pioneiros na ocupação das rochas, pois secretam ácidos que auxiliam a decomposição do mineral, e quando morrem, se tornam substrato ideal para que plantas continuem a ocupação do local. Estas plantas, normalmente são os musgos, primeiras plantas a ocuparem o ambiente terrestre. É interessante observar que estas plantas são de porte pequeno, pois não possuem vasos condutores internos para sua nutrição. Os musgos aqui presentes são da família Sematophyllaceae. Tanto os líquens como os musgos são bastante utilizados como indicadores de poluição, pois são bastante resistentes, podendo até mesmo sofrem ressecação e ficar em estado latente por muito tempo.

Nas regiões mais baixas, sob influência da maré existem as algas marinhas. São plantas dependentes da água para sua sobrevivência as quais podem ser clorofíceas, rodofíceas e feofíceas, dependendo do pigmento que possuem.

Aqui na Desertinha encontra-se bastante abundante a alga clorofícea Ulva iatuca, mais conhecida como alface do mar. Esta planta é de grande difusão e bastante resistente à poluição, por isso é utilizada como bioindicador, além de ser utilizada na indústria alimentícia; Outra alga significantemente presente nesta praia é a alga vermelha (rodofécea) Porphira, mais conhecida como nori. É uma alga cosmopolita bastante rica em vitaminas A, B, e C, possuindo valor comercial elevado devido à sua utilização na alimentação oriental. Existem muitos locais de cultivo artificial para industrialização. Podem ser vistas tanto fixas nas rochas, possuindo formato mais alongado, como soltas pela praia com forma circular, como um "chumaço", levadas pelas ondas do mar; O terceiro tipo de alga encontrado é a Enteromorpha, da mesma família que a Ulva. Este gênero não é comercializado, porém é de grande importância na cadeia alimentar, sendo alimento para diversas espécies de peixes e outros invertebrados marinhos.

Pois bem, os estudos sobre esses ambientes parecem ser infinitos, as composições são complexas e oferecem um vasto campo de pesquisas que poderão trazer muito benefícios à humanidade. Aguardem as novas matérias sobre os outros ecossistemas.


Tags: mata atlântica, costão rochoso

Otto Hartung

Formado em Gestão Pública e pós-graduado em Gestão Ambiental pela UNINTER, Otto trabalha na área de meio ambiente desde 1989 pela Fundação Florestal. Além da natureza, nutre uma paixão pela música, tocando gaita de boca, violão, guitarra e vocal.


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