Relação: homem x natureza

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08/02/2012 | Coluna: Meio Ambiente

Relação: homem x natureza

Os primeiros relatos de visitantes em busca dos atrativos naturais na área que hoje compreende a Estação Ecológica de Juréia-Itatins (EEJI) são da década 60, quando moradores do município de Peruíbe se aventuravam por trilhas até a Vila Barra do Una, uma caminhada que compreendia 24 km, em meio a brejos, serras e restingas. No início da década de 1980, foi a descoberta de uma linda cachoeira que encantou seus primeiros visitantes. Batizada de “Cachoeira do Paraíso”, formada pelo Rio Itinguçu, hoje o local é conhecido como Núcleo Itinguçu. Outro atrativo descoberto também na década de 1980 foi o circuito de praias do Guarauzinho, Arpoador, Parnapuã, Brava e Juquiazinho, localizadas a sudeste da EEJI, procuradas inicialmente por surfistas e posteriormente por praticantes do camping selvagem.

A partir de 1986, com a edição do Decreto nº 24.646, de 20 de janeiro de 1986, que instituiu a Estação Ecológica de Juréia-Itatins, tais atrativos passaram a fazer parte da área protegida, e a recém criada unidade de conservação herdava uma demanda de visitação em crescimento e presumivelmente desordenada. A década de 1990 foi marcada pela grande explosão de visitantes. No ano de 2002 o aumento da visitação cresceu ainda mais, colocando a Cachoeira do Paraíso (Núcleo Itinguçu) em 5º lugar no ranking dos pontos turísticos mais visitados do Estado de São Paulo, de acordo com informações fornecidas pela Secretaria de Turismo do Estado de São Paulo.

Esta demanda crescente, desordenada e incompatível de visitantes em busca dos atrativos naturais da Estação Ecológica de Juréia-Itatins, uma Unidade de Conservação (UC) do grupo de Proteção Integral (PI), com restrições legais para o turismo e ecoturismo, trouxe um impasse legal de tais atividades, pois segundo o Artigo 8º, parágrafo 2º da Lei nº 9985/2000 (Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza - SNUC) em uma Estação Ecológica: “É proibida a visitação pública, exceto quando com objetivo educacional, de acordo com o que dispuser o Plano de Manejo da unidade ou regulamento específico” (Brasil, 2000).

A EEJI compreende remanescentes de Mata Atlântica, um dos mais ricos ecossistemas em termos de diversidade biológica do planeta e é diretamente responsável pela qualidade de vida de milhares de brasileiros. Originalmente o bioma se estendia por uma área de aproximadamente 1.306 km², equivalente a 15% do território brasileiro. Sua ocorrência original abrangia integralmente, ou parcialmente, 17 Estados da Federação. Este bioma vem sendo destruído ao longo da história do País, desde a sua colonização, seu processo de fragmentação atingiu níveis críticos, e ainda hoje, a extração predatória de madeira, plantas ornamentais, a caça e outros produtos florestais constituem ameaças permanentes. Estima-se que restam, hoje, menos de 8% da mata primaria e secundaria em estágio avançado de regeneração, remanescentes de todo País (Capobianco, 2001).

Devido a curta distância da Capital e grande São Paulo, todos os municípios da Baixada Santista sofreram forte processo de ocupação, visitantes em busca da construção de sua segunda residência em um local preservado para lazer, descanso e contemplação, e no caso especifico do município de Peruíbe, esse processo ainda está em andamento devido aos grandes atrativos como a Estação Ecológica de Juréia-Itatins e o Parque Estadual da Serra do Mar. O município de Iguape também é uma das portas de entrada para a U.C., porém a pressão da especulação imobiliária é um pouco menor.

As restrições legais para a visitação pública desordenada e sem cunho educacional, com um numero excessivo de pessoas, trouxeram várias consequências negativas à U.C., tais como a geração de impacto ambiental das áreas visitadas, gerando uma série de conflitos entre funcionários e visitantes, entre moradores/comerciantes e a administração da U.C., trazendo problemas para economia local e gerando diversos processos judiciais e administrativos.

Agora com a promessa de recriação do Mosaico  Juréia-Itatins, muitos acreditam que será a resolução de boa parte dos problemas, pois a área que apresenta problemas de incompatibilidade com visitação pública poderá ser recategorizada para Parque Estadual e as que tem a presença de comunidade tradicional podera ser criada uma RDS- Reserva de Desenvolvimento Sustentável.

Será que uma reestruturação legal será o suficiente para resolver os problemas dessa relação entre a sociedade e as áreas naturais? Bom, isso só a própria sociedade pode responder... aguardem.


Tags: bioma, mata atlântica, homem, natureza, peruíbe

Otto Hartung

Formado em Gestão Pública e pós-graduado em Gestão Ambiental pela UNINTER, Otto trabalha na área de meio ambiente desde 1989 pela Fundação Florestal. Além da natureza, nutre uma paixão pela música, tocando gaita de boca, violão, guitarra e vocal.


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